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Domingo, 12 de outubro de 2008
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RECEITA Bolo fuxico |
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Sônia Machiavelli Corrêa Neves Editora
Chega com o banzo uma vontade de comer algo especial. Tem quem suspire por um mingau, tem quem se agarre a um tablete de chocolate, tem quem corra atrás de pacote de bolacha. À exceção unânime que é a sopa, as panacéias são geralmente doces.
Também padeço dessas pequenas tristezas que costumam ceder diante de uma guloseima. Pedaço de bolo, por exemplo. Mas não um bolo qualquer, comprado em padaria. Não deve ser confeitado ou recheado; indispensável que seja assado em forma redonda, buraco no meio; importante que tenha umidade na textura. Melhor ainda se passível de, segundo a intensidade de minhas angústias momentâneas, ser besuntado de geléia vermelha. Resumo da ópera: me pega em cheio se apresentar uma cara doméstica. Pois então, é fácil adivinhar que um bolo assim é minha “comfort food”.
Vou passar uma receita de bolo que até no nome é diferente: Fuxico. Não me perguntem por que, vendo conforme comprei. Experimentei em Porto Seguro, testei, não teve erro. Seu ingrediente essencial é a tapioca, que você pode encontrar nos supermercados ou na feira-livre.
Tapioca é subproduto da mandioca, essa raiz que tem no nome uma história mítica dos tempos pré-Cabral. Moça tapuia engravidou e deu à luz uma menina branca demais para os padrões de cor da tribo. Como tudo o que é diferente, causou estranheza. Aceitar a diversidade é exercício fino, pede uma cultura mais sofisticada.
Entre primitivos a solução era a morte ou o ostracismo. No caso da moça tuxaua - esta era a sua tribo - o pajé a levou para a margem oposta e ali a deixou com a filha, que recebera o nome de Mandi. A criança morreu antes de completar quatro luas. A mãe enterrou o corpo e viu, horas depois, brotar da cova uma planta desconhecida.
Atravessou o rio de volta, contou o caso, levou os homens da família para ver. A planta tinha se transformado em arbusto durante a noite e suas raízes em forma de chifre irrompiam abundantes entre a terra. Arrancaram uma delas, descascaram, viram que era branca como a pele da menina morta. Chamaram à planta “mandi-oca”, ou seja, “casa onde mora mandi”. Explicação altamente poética, como se vê. Depois descobriram que a raiz era comestível se cozida e tinha ótimo sabor; que podia virar bebida - o cauim, a tiquira; farinha e polvilho - a tapioca, a caiarema. E as folhas podiam ser consumidas também, se transformadas em caldo, a manipuera, depois de passar pela prensa chamada tipiti.
Ou se trituradas no pilão e misturadas a peixes ou caranguejos - nasciam ali os típicos pratos paraenses, servidos até hoje em cuias. A maniçoba, o tacacá, pois então. Aos especialistas em etimologia que me disserem que a palavra manioc já existia no francês antigo, responderei que sempre vou preferir a mitologia. A receita? Ah, sim, vamos a ela.
Coloque a tapioca de molho no leite por uma hora. Ela vai inchar, ficar hidratada. Bata os ovos; gemas e claras juntas. Acrescente o leite de coco e a manteiga à tapioca e mexa. Vá juntando o açúcar, a pitada de sal, o fermento. Derrame sobre a mistura os ovos batidos, depois o coco e a maisena. Mexa até que a mistura fique homogênea. Unte a fôrma, polvilhe farinha, coloque a massa e leve ao forno quente por 40 minutos. Este bolo fica macio e “grudento” na medida certa. Sirva só ou acompanhado por geléia vermelha. De jabuticaba, por exemplo. Assim, inteiramente natural do Brasil.
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