Franca/SP, sábado, 31 de julho de 2010 Ano 95 - Nº 20.888
Jornal Comércio da Franca

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Terça-feira, 28 de outubro de 2008
ALEXANDRE E LETÍCIA
Mãe doa os órgãos dos irmãos Alexandre e Letícia
Gina Mardones/Comércio da Franca
MOVIMENTO INTENSO - Pessoas conhecidas ou não dos irmãos mortos no sábado formaram imensa fila para se despedir de Letícia e Alexandre
MOVIMENTO INTENSO - Pessoas conhecidas ou não dos irmãos mortos no sábado formaram imensa fila para se despedir de Letícia e Alexandre
Renata Modesto
da Redação

Madrugada de segunda-feira. Um avião da Polícia Militar deixa o aeroporto de Franca rumo a São Paulo. Na Rodovia Cândido Portinari uma van segue em direção a Ribeirão Preto. A aeronave e o veículo levam equipes médicas da Central de Transplantes e os órgãos retirados de Letícia Massucato Rezende, 11, e Alexandre Freitas Massucato, 7, baleados na cabeça pelo pai, Hélder Massucato, na última sexta-feira e com morte cerebral desde sábado.

A doação dos órgãos foi autorizada pela mãe das crianças, Valéria Freitas Rezende, que, também baleada por Hélder, continua hospitalizada. A decisão ajudará a salvar a vida de sete pessoas que estão na fila de transplantes à espera de órgãos vitais. Outras quatro poderão voltar a enxergar com as córneas de Letícia e Alexandre.

Valéria, ainda no sábado, recebeu a notícia de que os seus filhos haviam sido baleados e estavam em coma. Ela chegou a visitá-los no CTI-Infantil. Poucas horas depois, soube que haviam sofrido morte cerebral e entrou em estado de choque. Como as crianças eram potenciais doadoras de órgãos, a Comissão de Transplantes da Santa Casa informou a Valéria da possibilidade de doação.

Ao meio-dia de domingo, Valéria autorizou a doação. A Central de Transplantes de Ribeirão Preto foi acionada e começou as buscas pelos receptores. Às 22h40 as equipes do Grupo Hepato (órgão especializado em captações de rins, fígado e pâncreas), de São Paulo, e do HC de Ribeirão, chegaram à Santa Casa.

A cirurgia de retirada durou pouco mais de duas horas. O pâncreas e fígado de Letícia foram encaminhados para hospitais de São Paulo e Sorocaba, respectivamente. O fígado de Alexandre foi para o HC, mesmo destino dos rins e córneas das duas crianças.

Ontem pela manhã, um homem de 51 anos, morador em Uberaba (MG), recebeu o fígado de Alexandre. O transplante foi realizado em Ribeirão e durou cerca de quatro horas. O hospital não forneceu detalhes do estado de saúde do paciente, o qual descreveu apenas como “bom”.

Enquanto a família das crianças participava do velório, na tarde de ontem, o fígado de Letícia era transplantado em um homem de 50 anos, no Hospital Unimed de Sorocaba. Ele sofria de cirrose hepática e estava na fila do transplante há um mês. Um pouco mais distante, na capital, uma mulher de 32 anos foi a receptora do pâncreas de Letícia. A cirurgia foi realizada no Hospital Oswaldo Cruz.

No início da noite de ontem, a assessoria da Central de Transplantes informou que um rim de Letícia seria transplantado em um paciente de 36 anos. O homem, segundo a assessoria, pode ser morador de Franca. Já uma paciente de 17 anos, de Marília, receberá um dos rins de Alexandre. Outros pacientes estão sendo avaliados para receber os outros dois rins. Já as córneas das duas crianças passarão por exames de laboratório. “No caso das córneas nós temos um prazo de até 14 dias para liberá-las”, disse o médico Geová Nina Rocha, coordenador do programa de organização de procura de órgãos.

Coração e pulmões tanto de Letícia quanto de Alexandre não puderam ser aproveitados. “A Letícia tinha feito transfusão de sangue e isso é um impeditivo. O outro é que as duas crianças utilizaram medicamentos para manter o coração batendo, que dificultam a viabilização”. No caso dos pulmões, não foram encontrados os receptores ideais. O pâncreas de Alexandre também não foi retirado porque o procedimento só é feito em pacientes maiores de 10 anos.

MÃE E FILHA
Boletim médico divulgado na tarde de ontem pela Santa Casa de Franca informava que o estado de saúde de Valéria é bom. Ela está consciente, se recuperando bem e acompanhada por familiares. Sua filha Júlia Freitas, irmã gêmea de Letícia, continua em estado grave, não tendo apresentado sinais de melhoras. A menina está internada no CTI Infantil, em coma, respirando por aparelhos.
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