Franca/SP, sábado, 31 de julho de 2010 Ano 95 - Nº 20.888
Jornal Comércio da Franca

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Terça-feira, 28 de outubro de 2008
Órgãos que salvam vidas
A morte dos garotos Alexandre Freitas Massucatto Rezende, de 7 anos, e sua irmã Letícia Freitas Massucatto Rezende, 10, causou mais um choque na população, que se mantém atônita e abalada pelo crime da Rua Ouvidor Freire, perpretado pelo ex-seminarista Hélder Massucatto Rezende. Como podem acompanhar os leitores, na edição de hoje do Comércio, exceção feita aos corações e aos pulmões, os demais órgãos de Alexandre e Letícia foram doados para transplante.

Interessante e esclarecedora entrevista foi concedida ontem pelo coordenador da Central de Controle e Captação de órgãos do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, Jeová Nina Rocha, ao programa Hora da Verdade, da Rádio Difusora. Ele falou sobre o procedimento de doação e captação dos órgãos. Assim como aconteceu no episódio da jovem Eloá, a doação dos órgãos das crianças reavivou o interesse na discussão do tema.

Hoje, no Brasil, para ser doador não é necessário deixar nada por escrito, em nenhum documento. Basta comunicar à família o desejo de doação. A doação de órgãos só acontece após autorização familiar, como explicou na referida entrevista o médico Jeová Rocha. Segundo balanço da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, a decisão de Valéria vem se tornando cada vez mais comum entre as famílias do Estado. De janeiro a agosto deste ano, 47,5% das famílias abordadas pelas OPOs (Organizações de Procura de Órgãos) disseram não à doação. Apesar de ainda alto, este é o menor índice desde 2004. No ano anterior, no mesmo período, a recusa chegou a 53,4%.

Os números comprovam que as famílias já estão menos resistentes à doação. Dentro da população sempre existirá uma parcela contrária, principalmente porque as pessoas não entendem como funciona o processo. Mas esse quadro vem mudando a cada ano. Muitas famílias acabam não autorizando a retirada dos órgãos por medo de que o ente querido seja mutilado, mas não há motivos para essa preocupação. A falta de informação sobre a situação do paciente também contribui para a recusa. Se o médico não informar corretamente sobre como é feito o diagnóstico de morte encefálica, é natural que as pessoas tenham medo.

O gesto da mãe das crianças, a cabeleireira Valéria Gomes Freitas Rezende, autorizando a doação dos órgãos dos dois filhos, mudou a vida de 11 pessoas que aguardavam um transplante de fígado, pâncreas, rins e córneas, segundo o médico entrevistado pela Difusora. Apesar do luto em que todas as pessoas sensíveis mergulharam, acompanhando a família vitimada, alguns traços de vida despontam no cenário de morte. Há chances de melhorar a qualidade de vida de 11 pessoas desconhecidas da família Rezende e por ela beneficiadas. Integravam uma lista cada vez mais crescente de dependentes de doadores de órgãos. Lista que, aliás, anda devagar por falta de melhores esclarecimentos sobre como funciona a doação e o transplante de órgãos no Brasil.
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