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Quinta-feira, 6 de novembro de 2008
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DOAÇÃO DE ÓRGÃOS Família de transplantado sonha com uma vida normal |
Dirceu Garcia/Comércio da Franca UMA NOVA CHANCE - A fotógrafa Joice Cristina de Souza Ribeiro mostra imagem dela, ao lado do marido, o técnico em calçados Cacildo Ribeiro Pinto - que recebeu um dos rins de Letícia Massucato - e da filha Vitória, de 2 anos | Renata Modesto da Redação
Por um ano inteiro, o técnico em calçados Cacildo Ribeiro Pinto, 36, viveu a mesma rotina: passar oito horas por noite ligado a um aparelho que tem como função filtrar o sangue, ou seja, executar a função que seria de seus rins. O tratamento complexo é decorrente de um sério problema renal que mudou por completo a vida de Cacildo. Além de conviver com a expectativa de um dia receber um novo rim, ele teve de abandonar as trilhas, seu hobby, e nunca pôde nadar com a filha Vitória, de 2 anos. Desde a semana passada, o homem enfrenta uma nova etapa. Recupera-se de um transplante do órgão, realizado no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.
Cacildo foi um dos sete beneficiados com os órgãos doados pelos irmãos Letícia Massucato Rezende e Alexandre Freitas Massucato. As crianças foram baleadas pelo próprio pai, Hélder Massucato, no dia 24 de outubro. Tiveram morte cerebral no dia seguinte. A mãe das crianças, a cabeleireira Valéria Freitas Rezende, que sobreviveu à tragédia, autorizou a doação.
A fotógrafa Joice Cristina de Souza Ribeiro, casada com Cacildo há 12 anos, não esperava que a tragédia que abalou Franca pudesse envolver sua família de maneira positiva. “Vimos o noticiário, ficamos tristes com a situação, mas em nenhum momento pensamos que o rim poderia ser compatível”.
Segundo Joice, seu marido descobriu o problema renal em setembro de 2007, quando apresentou hipertensão, dores de cabeça e inchaço nas pernas. Ao fazer os exames, a triste notícia: os rins de Cacildo estavam debilitados, funcionando com apenas 10% da capacidade. “Até então ele levava uma vida normal. Depois disso, passou por uma cirurgia para implantar o cateter e passou a fazer diálise peritoneal (filtragem de sangue)”.
O problema de saúde de Cacildo mudou sua vida. Para não ter que se submeter à hemodiálise três vezes por semana, quatro horas por dia, e interromper seu trabalho, ele passou a fazer a diálise todas as noites. O funcionamento dos rins melhorou, mas os passeios da família foram ficando cada vez mais restritos. Seu esporte preferido, a trilha, teve de ser abandonado. As brincadeiras com a filha de 2 anos já não podiam ser tão freqüentes. “Minha filha nunca entrou em uma piscina. Só ele sabe nadar e nunca pôde entrar com ela por conta do cateter”, disse Joice.
Na segunda-feira, 27 de outubro, a vida da família começava a mudar. Cacildo recebeu uma ligação do médico e foi informado que haviam encontrado um rim compatível com o seu organismo. Não demorou muito para ele saber que o órgão era de Letícia. “Levamos um baque. Agradecemos a Deus e pedimos para que ‘Ele’ desse força para a família”, afirmou Joice. No mesmo dia, às 22h30, Cacildo entrou na sala de cirurgia. Seis horas depois estava com o novo rim. “Ele está bem, mas ainda hospitalizado e sem previsão de alta”.
Joice faz planos modestos para quando o marido deixar o hospital: voltar a levar com o marido uma vida normal e encontrar Valéria. “Ainda quero poder dar um abraço nela”, disse. E fez uma promessa. “Vou levar flores ao túmulo das crianças e visitá-lo sempre”.
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