Franca/SP, sábado, 31 de julho de 2010 Ano 95 - Nº 20.888
Jornal Comércio da Franca

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Artes
Sexta-feira, 24 de julho de 2009
Dois séculos de memória

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Sergio de Pinho/Comércio da Franca
<b>EQUIPE</B> - Wanderlei Pereira, Maria Figueiredo e a diretora Graziela Alves Corrêa trabalham na digitalização do Arquivo Histórico Municipal de Franca *Capitão Hipólito Antonio Pinheiro*
EQUIPE - Wanderlei Pereira, Maria Figueiredo e a diretora Graziela Alves Corrêa trabalham na digitalização do Arquivo Histórico Municipal de Franca *Capitão Hipólito Antonio Pinheiro*
Paulo Godoy
da Redação

O cheiro de BHC exala com força quando o livro contábil de um antigo cartório da cidade é aberto sobre balcão para uma consulta corriqueira. Quantas vezes o volume de 80 por 40 centímetros e uns 10 quilos de peso, com capas duras de papelão e cantoneiras de metal já não foi aberto desde 1932, quando suas anotações foram postas ali, e o cheiro do veneno agrícola que hoje nem mais é permitido no Brasil ainda pega muita gente desprevenida coçando o nariz? Bastava um filetinho no centro do calhamaço que fungo algum prosperaria entre as páginas recobertas com tinta nanquim, cuidadosamente preenchidas numa caligrafia tão cuidadosa e simétrica que parece ter saído de uma aula de educação artística.

O livro de escrituras fiscais não é o mais antigo nem o mais interessante. É apenas um entre os quase 200 mil documentos que atualmente compõem o acervo do Arquivo Histórico Municipal de Franca "Capitão Hipólito Antônio Pinheiro" e que hoje completa 20 anos de criação.

Foram necessárias duas décadas para que a administração pública - e a própria sociedade -entendessem esta repartição, uma das várias a funcionar dentro do Colégio Champagnat, não como o destino de algo inservível e papel velho, mas como local de referência em pesquisa histórica em Franca e região.

Sua própria história começa com um decreto do ex-prefeito Maurício Sandoval, em 1989. Chega, então, o arquivista da Cúria Metropolitana da Igreja Católica em São Paulo, Wanderley dos Santos, que passa a dirigir o recém-criado arquivo pelos seis anos seguintes, período em que produziu inúmeras pesquisas sobre Franca. Depois dele, assume o ex-professor de história, José Chiachiri Filho, que permanece no cargo até o final de 2004.

"Os dois, Wanderley e Chiachiri, foram igualmente importantes para a consolidação do arquivo. O conhecimento prático e acadêmico de cada um deles foi fundamental para funcionarmos como funcionamos hoje", disse Graziela Alves Corrêa, atual diretora.

O ACERVO

A maior parte das dezenas de milhares de documentos que formam o acervo do arquivo vem de instituições oficiais. Igreja, Prefeitura, Justiça e cartórios contam através de imagens e textos a história do arraial que deu origem ao vilarejo, que fez surgir a vila, que se transformou em cidade. O restante chega por doadores particulares.

São atas da Câmara Municipal, processos judiciais, escrituras de compra e venda de imóveis - e de escravos -, livros, mapas, plantas arquitetônicas, fotografias e jornais que elucidam e ajudam a entender o passado de Franca e região e chegar o mais perto possível da realidade de uma época e às características da sociedade local nos séculos 20, 19 e até 18.

Guardado numas das caixas no anexo da sala principal, é um inventário de 1786, tempo em que Franca pertencia à comarca de Mogi das Cruzes, o primeiro e mais antigo documento catalogado pelo arquivo. Trata da negociação de uma área no Sítio das Lajes, "no caminho de Goyaz", local provavelmente próximo a Patrocínio Paulista. Ao todo, são seis documentos desse período catalogados.

Para Graziela, tão importante quanto conservar esse rico material é permitir que ele esteja acessível à população. "Aos poucos, vamos investindo na tecnologia como forma de garantir que mais pessoas conheçam o arquivo, sem colocar em risco a integridade dos documentos", disse a diretora.

PESQUISADORES E ALUNOS SÃO O PÚBLICO PRINCIPAL

Entre pesquisadores e alunos, perto de quatro mil pessoas passaram pelo local em 2008. No último ano, além das consultas e trabalhos individuais, diversos cursos foram oferecidos, abertos a qualquer interessado.

A lista de espera de mais de 300 pessoas, de todos os níveis sociais e profissões, mostra que a aposta nas aulas de paleografia (interpretação de escritas antigas), higienização e história da arte - este, o mais procurado - deram certo e ajudaram a aproximar o arquivo de um público que normalmente não frequenta espaços desse tipo.

Além deles, costuma ser constante a presença de escolas que agendam visitas para conhecer o local. "É preciso algum esforço para atender tanta gente e fazer com que se apaixonem pelo assunto", disse a diretora Graziela.

Mesmo com todos os avanços obtidos nos vinte anos de sua existência, é sempre bom lembrar que o arquivo é um órgão público municipal e que, como tal, sofre com os descaminhos que a política toma a cada quatro ou oito anos, quando, normalmente, os diretores são trocados e a gestão que assume nem sempre tem como urgentes questões que para o antecessor eram prioritárias.

Assim, o Arquivo Histórico de Franca, para exemplificar, só apenas agora conseguiu um aparelho para escanear páginas de grande formato, fundamental para colocar o acervo em meio digital. Ainda faltam aquisições importantes, como as estantes climatizadas, equipamento básico em qualquer lugar que se destine a guardar papéis com mais de 200 anos de existência.

Também quem sabe a Secretaria de Educação não resolva olhar para as mesas e cadeiras da recepção, cada uma de uma cor, ano e estilo diferentes, assim como os armários que equipam o arquivo, nitidamente deixados ali como última opção de aproveitamento.

FUNGOS E MAIS FUNGOS

Como as conquistas e o trabalho realizado no Arquivo Histórico de Franca são muito maiores do que as críticas pelo o que ainda falta, seria até deselegante com quem ali trabalha centrar fogo naquilo que está por ser feito.

Apesar dos pesares, a diretora Graziela, sua equipe de dois funcionários, mais os estagiários da Unesp que passam por lá todos os anos, ainda conseguem realizar um trabalho que mistura profissionalismo e paixão.

É praticamente nula a chance de alguém sair de lá sem obter a fração de uma informação qualquer que procure. Não raro, pessoas consultam documentos para conhecer a genealogia da família, outras procuram pelo histórico de alguém morto e enterrado nos cemitérios municipais, principalmente o da Saudade, o mais antigo. E há também quem passe por lá todos os dias apenas para ler os jornais e jogar alguma conversa fora.

Depois que BHC foi substituído por álcool e lisoforme, na proporção de um litro do primeiro e quatro "dedinhos" do segundo na limpeza dos livros e das páginas carregadas com fungos, Graziela, que está no arquivo desde o seu começo, lembra que olhar para as caixas empilhadas tal como estão hoje nem de longe representa o que trabalho que tiveram no começo dessa história.

"Era tanto papel, com fungo verde, azul, vermelho, que a gente pensava que não ia dar conta", diz ela com bom humor, lembrando de outra passagem, que também tira risos: "Bem lá no começo, quando pegava esses documentos mais antigos, eu ficava cismada com a quantidade de pessoas com o mesmo nome, até que um dia, depois de umas 200 constatações, eu resolvi perguntar ao Wanderley (dos Santos) se estava correto".

Acontece que a diretora lia os papéis que sempre começavam pela expressão "Anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo". Como não sabia nada de paleografia, daí a deduzir que se tratava de Anna do Nascimento foi um pulo. "Até que o Wanderley resolveu me chamar e explicar o que estava acontecendo".

Uma palestra com o professor-doutor Rogério Naques Faleiros, marcará as comemorações de aniversário hoje, a partir das 14 horas. Na ocasião, Faleiros lançará seu livro Homens do Café: Franca, 1880-1920. A entrada é gratuita. Informações: (16) 3711-9207/9215.
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